Às cinco da manhã, ele já estava na moto.
O pai do Vitor foi embora quando ele era criança. Depois disso, éramos só nós dois.
Quando o câncer me pegou, ele tinha dezessete anos. Largou os planos e virou motoboy em Curitiba.
Foram dois anos acordando de madrugada. Cada corrida dele pagava um pedaço do meu tratamento.
Ele nunca reclamou. Dizia que mãe não se abandona.
Na semana passada, um carro tirou ele do chão.
Um carro jogou o Vitor a dois metros no ar e não parou pra socorrer.
As duas pernas quebraram. Hoje ele não consegue nem sentar sozinho na cama.
O pilar da nossa casa partiu no meio. Quem cuidava de mim agora precisa de cuidado.
Os médicos deram quarenta dias pra operar.
O raio-x mostra o tamanho do estrago: fraturas que só se resolvem com placa e parafuso.
Cada semana sem cirurgia, os ossos calcificam na posição errada. Depois, nem operando volta ao normal.
A fila do SUS é de oito meses. O prazo que o Vitor tem é de quarenta dias.
O motorista que fugiu diz que não tem dinheiro. E simplesmente some.
Eu estou em casa, com câncer, esperando por ele.
Enquanto o Vitor está naquela cama, o meu próprio tratamento vai ficando pra trás.
O que mais dói não é a doença. É ser mãe e não conseguir ajudar meu filho.
Ele me diz que não precisa se curar por ele. Que quer voltar a andar por mim.